Cultivar e curtir tremoços

O tremoço, semente do tremoceiro, leguminosa de origem europeia, tendo sido introduzida nos hábitos alimentares pelo império romano.
O seu consumo está estreitamente ligado á cultura popular, com papel importante nos hábitos sociais do meio rural, e também na economia familiar.

Bem cedo, ainda antes da missa da manhã, com a chegada dos primeiros devotos, a “ mulher dos tremoços”, no sítio do costume, lá se ajeitava no seu banquinho, atrás do alguidar, bem cheio de tremoços saídos da curtimenta, que lhe valeriam algum dinheiro, onde pronta estava também a pequena medida, o salamim, caixinha de madeira escurecida pelo tempo e pelo uso.
Ao Domingo, dia de culto religioso, e descanso semanal para as gentes do campo, os homens, entre si, aproveitavam para confraternizar, negociar, entre o hábito descontraído de trincar um e outro tremoço, e o “ mata bicho”…o “copo” (de vinho) no café ou na taberna das proximidades.
Ainda hoje, um pouco por todo o lado, mas talvez com maior frequência nas zonas rurais, encontramos este aperitivo, de custo reduzido, servido gratuitamente, em pequenos pires, em cafés e cervejarias, tantas vezes apelidado de “marisco dos pobres”.
A “ mulher dos tremoços” desapareceu do adro da igreja, no entanto é possível encontrá-la nos locais de concentração popular, feiras, mercados…zonas de praia, quase sempre onde houver uma cerveja fresca, ou um copo de “tinto”.

                             

                                                 CARATERISTICAS E BENEFICIOS



O tremoceiro, é uma planta de carater rustico, com pouca necessidade de água, dinâmica na oportunidade reprodutiva, que se desenvolve em solos pouco férteis, apresentando elevada resistência ao frio.
A sua semente, o tremoço, no seu estado natural, apresenta elevado teor de proteínas, e fibras,  mas também componentes neurotóxicos, alcalóides, que lhe emprestam o sabor amargo. A cozedura e alguns dias em água corrente, liberta-os dessas toxinas, deixando-os aptos para consumo.
Na fertilização do solo, o cultivo do tremoço traz grandes benefícios, as suas raízes ultrapassam um metro de profundidade, trazendo nutrientes das camadas mais profundas para a superfície. A abundante parte vegetativa, tem grande capacidade para absorver o azoto da atmosfera, nomeadamente o transportado pela chuva, concentrando em si, um elevado teor, possível de transferir para o solo, se trituradas as plantas ainda verdes, mais ou menos aos 120 dias, e  misturadas com a terra, preparando-o para outras culturas. Sendo por isso muito utilizado como adubo orgânico, com capacidade para ajudar na fixação de minerais, a sua decomposição na terra, estimula a atividade microbiológica, que produz inúmeros nutrientes essenciais ao desenvolvimento das plantas.
Ótimo para adubar o olival.


                                                             CULTIVO DO TREMOÇO 

                                                                - Novembro / Dezembro -      
                                                                     Quarto Crescente

Diz o meu pai “…se levarmos tremoços no bolso e os deixarmos cair, eles nascem…” É devido a este ímpeto reprodutivo, que o seu cultivo se mostra facilitado.
No final do Outono, durante o mês de Novembro, Dezembro, depois da queda das primeiras chuvas, com os solos já húmidos, basta espalhar a semente pela terra, 25 a 30 sementes por metro quadrado, sem qualquer fertilizante ou lavoura.
Se o cultivo for para fins de fertilização do terreno, podemos espalhar a semente de forma mais concentrada.

Ao germinarem, voltam-se para o solo e enraízam.



No entanto, a verdade de outrora com as alterações climatéricas, em que se verifica um aumento da temperatura, do tempo seco, talvez necessite de algum ajustamento, para quem tem um trator, depois de espalhar a semente, passar com a frese ao de leve, remexendo a terra á superfície, de modo a que fiquem ligeiramente enterrados, para que possam usufruir de uma maior quantidade de humidade parece-me benéfico.
Ou então, com um gadanho, uma enxada, pica-se um pouco a terra, não devendo ficar enterradas mais que 2 a 3 cm.
Todavia, se pretendermos uma produção abundante, devemos disponibilizar-lhe os mesmos cuidados que temos para com outras culturas, preparação da terra, um pouco de fertilizante...como as favas, podendo ser semeados do mesmo modo, aos regos ou às covas. Quando assim for, os regos devem ser espaçados cerca de 30 cm, e em cada metro linear, colocamos 10 a 15 sementes. 


                                                                 

                                                                       COLHEITA         

                                                                                      - Julho / Agosto -


O tremoceiro vai-se desenvolver ultrapassando um metro de altura.
No final da maturação, aos 130…140 dias, as vagens pontiagudas, tem estrutura dura, sendo necessário algum cuidado no manuseamento.
A colheita é feita nos finais de Julho…Agosto.
Por esta altura, as plantas terminaram o ciclo de vida, já se encontram secas, assim como os tremoços que se encontram no interior das vagens.
 A apanha, é mais facilitada usando umas luvas, e sendo feita pela manhã cedo, aproveitando alguma humidade, antes do sol começar aquecer, depois ficam ásperas, desagradáveis de manusear devido aos bicos aguçados. 
Uma a uma, pegam-se as plantas pelo pé, quebrando-as, reunindo-as em pequenos molhos que facilitarão o transporte, ou colhem-se apenas as vagens.
Na eira, se necessário espalham-se dois ou três dias ao sol, e em final de tarde, quando se encontram bastante estaladiças, debulham-se, pisando-as com os pés, com o rodado do trator ou batendo com um malho. Depois é separar os tremoços da palha, podendo-se utilizar uma pá, aproveitando alguma aragem, enchendo-a e com os braços ao alto, elevando-a, deixando-os cair lentamente para que o vento vá limpando desses resíduos, ou pode-se também mandar ao ar, contra o vento.
Ter uma máquina de limpar cereais, azeitona, facilita muito este processo, sendo um bom investimento, custando cerca de 300€, pode-se optar por comprar usada.
Os tremoços depois de limpos, devem ficar mais quatro, cinco dias, espalhados ao sol, volvendo-os diariamente com os bicos de um gadanho, para que fiquem bem desidratados, secos, para armazenamento.
Guardados em local seco, dentro de um saco de serapilheira, ou outro recipiente, conservam-se durante todo o ano.
Semente que se pode utilizar no ano seguinte.


                                         
                                   

                                                             CURTIR TREMOÇOS

                                               (A água da rede não serve para os curtir)


1-      Escolhê-los para retirar alguma impureza e por de molho, de um dia para o outro, 20 a 24 horas.

2-      Cozer, até conseguirmos espetar a unha no “olho”, 50 a 70 minutos, ou mais se necessário. Demasiado cozidos, ficam moles.

3-      Depois de cozidos, escorrem-se e colocam-se dentro de um saco de serapilheira, num ribeiro, riacho, com água corrente, ou poço com nascente. Em casa, desde que se tenha água da nascente, podem-se colocar dentro de uma barrica…alguidar, mudando a água, 4 vezes, por dia, durante, 3 a 4 dias, provando, até deixarem de amargar.


4-      Guardar num recipiente com água e bastante sal marinho.

5 comentários:

  1. Boa tarde! Para plantar os tremoçeiros compra-se os tremoços que vem dentro das embalagens no mercado ou têm de estar secas?

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  2. Boa tarde Daniel. Para semear tem de comprar tremoços secos. Cumprimentos.

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  3. Boa tarde! Felicito-o pela sua iniciativa de divulgação de práticas tradicionais.
    Faço apenas o reparo que não é na verdade o tremoceiro que faz a fixação do azoto mas sim umas bactérias (de nome rhizobium) que vivem dentro de uns caroços (nódulos) que aparecem nas suas raízes. É uma espécie de troca de favores pois o tremoceiro é capaz de fixar o dióxido de carbono do ar produzir açúcar mas não consegue fixar o azoto do ar e a rhizobium consegue fixar azoto e produzir amónia mas não consegue produzir açúcar.
    Mas atenção que muitos herbicidas e os adubos químicos matam a rhizobium, por isso o tremoço só ajuda a fornecer azoto com práticas realmente tradicionais onde se utiliza estrume para adubar e se corta a erva por meios mecânicos (gadanha, corta mato, etc.).
    Cumprimentos

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    1. Gostei da explicação. Obrigada

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    2. Prezado amigo Pedro Rodrigues, agradeço as felicitações e este elucidativo e importante contributo...será sempre bem vindo o que nos acrescenta saber.
      Cumprimentos.

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