Preparar a terra para o cultivo...fazer uma horta...rega


Quem se decide por ter uma horta, encontra mais do que legumes frescos…encontra equilíbrio…remédio para muitos males.

Como dizia o amigo Mário Ramos,

“ …Oh senhor mestre…isto é verdade…está provado!..Dizem os entendidos, que mexer na terra faz bem à carola!..É verdade!…” 

Homem que se deixava adivinhar na abundancia de coisas simples…figura franzida, rosto tolhido, coberto pela abundancia dos anos e da extensa barba grisalha, pigmentada pelo vício que se escapulia pelas narinas…pacientemente enrolava o cigarro, entre um e outro, golo de cerveja…fiel aos anos do Rock and Roll, sem pressa, a vida corria-lhe devagar.

Do Norte se dizendo, do mundo se fez, ao Centro veio parar.

De profissão, mais não quis…hábil no manejo do maçarico e do ferro de soldar…quis a reforma que ainda conseguiu ter…quis o regresso xistoso, às terras do Alto Minho.

 

Presente e futuro, agouram muitas dificuldades, ter capacidade para cultivar alguns alimentos, ou até criar alguns animais, aumenta a capacidade de sobrevivência, reduzindo a dependência financeira.

Para se fazer uma horta, tem de se possuir um pedaço de terra fértil…e água acessível, a baixo custo.  

Sei por experiencia própria, possuindo um furo para captação de água, cujo investimento atual, ronda os cinco mil euros, onde a mesma têm de ser bombeada até á superfície, ao custo que a energia se encontra…dependendo só da mesma…se não houver uma gestão criteriosa, fica mais caro que adquirir os produtos no supermercado.

No entanto, se soubermos sintonizar-nos com a época das chuvas…utilizando em simultâneo, sistemas de rega de baixo consumo, gota a gota ou localizada, consegue-se alguma rentabilidade.

Os terrenos de proximidade a riachos, ribeiros, rios…nascentes há superfície, que requerem poucos custos para captação de água, esses sim, são uma mais-valia, uma excelente oportunidade.

Em muitas heranças de família eles existem, mais ou menos identificáveis, devido ao matagal que avançou, e os deixou indefinidos, submersos em silvas e mato, mas com alguma pesquisa, conversa com familiares, eles podem ser identificáveis…outrora hortas repletas de frescura verdejante.

O trabalho será árduo…a desmatagem, limpeza, requer persistência, e resistência física, a utilização de máquinas de grande porte para a limpeza desses terrenos, mostra-se uma boa opção quando a acessibilidade assim o permite, de custos razoáveis que se justificam.

Os poços existentes, ocultos na vegetação, depois de limpos podem proporcionar alguma água para rega…o ribeiro, ou o riacho na proximidade também, fazendo uma pequena represa, amontoando algumas pedras e terra, barro, para reter a água, bombeando-a depois com uma pequena motobomba, portátil.

A terra depois de liberta dos invasores, fica adequada para cultivo, aproveitando o trabalho de vanguarda a que os antepassados se dispuseram, limpando-a de pedras, construindo socalcos nas encostas, suportados por paredes em pedra, de modo a aprisionar a camada de terra fértil, assim como nos vales que devido às suas características geográficas, permitem a existência de cursos de água.

No entanto, pode acontecer que estejamos limitados nessa opção, estejamos condicionados a um pedaço de terra que possuímos, demasiado arenoso, ou demasiado argiloso…com pedras…de aspeto pouco fértil.
Uma das coisas que podemos começar por fazer, é limpa-lo das mesmas…vamos cavando, escolhendo-as e colocando-as dentro de um balde que nos acompanha, depois vamos despejar em lugar onde já não incomodem. Futuramente podem ser aproveitadas para fazer argamassa de cimento, em trabalhos de construção ou remodelação, ou então, abrimos uma vala de profundidade considerável, 60…70cm…e enterramo-las.

Os terrenos argilosos, ficam barrentos quando molhados, formam crostas compactas com ação do sol, ficando depois difíceis de penetrar pelos raios solares, abrindo gretas.
A germinação de sementes torna-se difícil, perante a incapacidade para romper esta crosta, dificultando também o processo de desenvolvimento de raízes, quando se pretende plantar as pequenas e frágeis plantas.

Para os tornar mais soltos, aráveis, podemos-lhe adicionar fertilizante orgânico em quantidade.
Começamos por cavar a 25…30 cm de profundidade e vamos esmagando os torrões que se soltam, depois espalhamos à superficie, uma camada de estrume, com cerca de 10cm e voltamos a cavar, agora um pouco menos em profundidade, 20cm …mais ou menos, misturando bem.
De certa forma ele apresentará sempre as carateristicas de um terreno argiloso, no entanto talvez agora seja possível cultiva-lo, por vezes é necessário repetir a operação e adicionar mais estrume .

Nos terrenos demasiado arenosos, o procedimento será identico. Em alternativa, se decorrerem escavações nas proximidades, onde se movimentam grandes quantidades de terra, pode-se pedir que descarreguem um ou dois camiões no local, misturando-a.


A preparação da terra para o cultivo, de forma manual ou com auxilio de máquinas, tem como objetivo obter uma textura mais solta, libertá-la das ervas...permitindo tambem o arejamento do solo e a penetração dos raios solares.

Quando utilizamos uma charrua, rasgando-a, volvendo-a, os sulcos formados, facilitam esse processo, as ervas ficam com as raízes expostas, pelo que assim deverá ficar alguns dias.





O próximo passo será uniformiza-la, deixa-la mais solta, pronta a ser cultivada.
Para esse efeito podemos usar um escarificador ou uma frese.

O escarificador, é um arado com vários bicos que o trator arrasta, quebrando os torrões e uniformizando a superficie.
A frese por sua vez, possui várias "facas", acopladas a um eixo de movimento rotativo, que vai remexendo a terra, como que a triturasse, deixando-a com textura mais solta...fofa.





Na maioria das vezes, na agricultura familiar, em solos faceis de trabalhar...por uma questão prática, prescinde-se da charrua, utilizando-se apenas a freze para remecher a terra e deixa-la apta para o cultivo.
Nesta opção tem de se limpar préviamente o terreno...cortando a erva, caso contrário ela vai-se enrolar á frese bloqueando o seu funcionamento.
Para que a terra fique em boas condições de cultivo deve-se fazer duas a três  passagens.

As pequenas maquinas agrícolas como motoenchadas e motocultivadores, utilizam maioritariamente esta alfaia, no entanto, os segundos, possuindo algum poder de tração , já permitem a utilização de uma pequena charrua, como o velho motocultivador.







Na cava manual, normalmente utiliza-se uma enchada de bicos.
Começa-se por "abrir a cava"...para tal, de costas para o terreno a trabalhar, abrimos uma  vala com cerca de 25..30cm de profundidade, em toda a largura do mesmo, puxando a terra, espalhando-a...quando concluída, passamos então para o lado contrário...posicionamo-nos imediatamente atrás do sulco aberto e começamos a cavar, lançando a  enchada para a terra crua , puxando e virando, aproveitando o desnivel da vala que abrimos, tal como acontece com a charrua, de modo a que a erva fique virada para baixo...na cavadela seguinte, insistimos, e retiramos mais alguma terra de profundidade, limpa, cobrindo mais um pouco a anterior que acabamos de virar, e assim sucessivamente, enterrando a erva, deixando a camada de superficie limpa, de textura solta pronta a cultivar ao mesmo tempo que vamos abrindo uma nova vala, repetindo o processo.
videoÉ importante tentar-mos não mudar os pés muitas vezes...mantermo-nos no mesmo sitio tentando alcançar o máximo de area possivel, para não calcarmos a terra com os pés...a intenção é ir-mos cavando, virando a terra para junto das pernas, mantendo á nossa frente sempre a cava aberta, conforme video .

 
 
 Depois da terra preparada, vamos tentar perceber como queremos dividir o espaço e qual a disposição a dar a cada cultura, para isso temos de considerar dois fatores importantes, o tipo de rega que vamos utilizar e a inclinação do terreno.

 
 
As leiras não podem ser feitas no sentido da mesma, mas sim, na sua perpendicular. Se utilizarmos uma disposição nesse sentido, quando regamos, a água corre rápido, sem dar tempo de se infiltrar na terra, enchendo rapidamente ao fundo, acabando por rebentar, nunca sendo possível uma rega conveniente.

 
Se for uma área relativamente pequena, com pequena inclinação, podemos tentar puxar alguma terra até ficar nivelada. Isto se estivermos a pensar regar a fio, conduzindo a água pelos regos. 



 
Se optarmos pela rega “gota a gota” este problema não se verifica, pois a água vai pingando lentamente, humedecendo a terra em profundidade. Utilizando a chamada “ fita de rega”, semelhante a uma tripa com pequenos orifícios, espaçados cerca de 25…30 cm entre si. Também existe a versão em mangueira, um pouco mais cara, mas também com maior possibilidade de se reutilizar.

 
A fita só com alguns cuidados, lavando-a logo que deixe de ser utilizada no final da época, ligando-a a uma torneira com pressão, pondo água a correr durante algum tempo, para limpar a sujidade que entretanto se fixou nas paredes interiores. Devido ao seu baixo custo mostra-se uma opção interessante, cerca de 20€ cada rolo de 200 metros.  A rega “gota a gota” é uma rega demorada, lenta, entre uma a duas horas.

 
Este sistema, mesmo com águas supostamente limpas, implica a utilização de um filtro, pois a mais pequena sujidade entope os orifícios.

 
A fita, em relação há mangueira, suporta uma pressão bastante inferior, sendo adequada para ligar a um depósito ou tanque. A mangueira permite-nos utilizar uma maior pressão, sem correr o risco de rebentar.

Este sistema por debitar um caudal reduzido, permite linhas de rega, alongadas, 10...20…30 metros, dependendo também do caudal disponível.

 


Na rega localizada, utilizamos uma mangueira normal, de pequeno diâmetro, 16…20 milímetros, sem furos, que depois furamos, junto às plantas, fazendo um furo de um e outro lado do pé, distanciado cerca de, 10…15 cm, com uma pequena broca para madeira, de 4 ou 5 milímetros, utilizando um berbequim, ou em alternativa um arame bem quente. 

Este sistema de rega exige uma pressão superior.

 



O comprimento de cada linha de rega, assim como o diâmetro dos furos, varia consoante a mesma, mais de 5 metros é arriscado. Se suspeitamos que a pressão pode não ser suficiente, melhor é começarmos por experimentar um comprimento de 3…4 metros, e furos de 3…4 milímetros.

Se exagerarmos no comprimento, ou no diâmetro dos furos, nos últimos quase não sai água.

 
Por vezes, o jato de água que sai dos furos, molha as plantas, e algumas como os tomateiros, não gostam. Para evitar isso ou reduzir um pouco o caudal de saída, pode-se cortar pequenos pedaços da mesma mangueira, corta-los ao meio e com um maçarico dar-lhe um pouco de calor forçando-os a abrir um pouco, colocando-os depois a cobrir os furos. Desta forma a água sai com mais suavidade.

 







As várias linhas são ligadas a um tubo principal, de diâmetro adequado ao caudal que necessitamos. Para esse efeito furamo-lo com um acessório próprio, onde colocamos as pequenas torneiras de plástico. Embora se possa prescindir delas, usando apenas pequenos acessórios de ligação, aconselho a colocá-las, pois por vezes é necessário regular o caudal de saída.

 


A escolha do sistema de rega depende de vários fatores, da área a regar, se a água é de um tanque, ou está a ser bombeada diretamente do poço, se é da rede…pode acontecer também, não termos disponibilidade de tempo e ter de optar por um sistema de rega automática, utilizando torneiras elétricas, com um relógio programável, que abrem e fecham há hora que se pretender, chamadas electroválvulas com temporizador, (pessoalmente, não confio neste sistema, avariam com facilidade).

 







Por outro lado, mangueiras, fitas, acessórios, válvulas, têm um custo que somado adquire algum significado, pelo que deve ser bem ponderado…a rega a fio, embora com maior consumo de água, dependendo das circunstâncias, mostra-se talvez a mais prática e económica. No entanto, tudo isto é muito relativo, cabe a cada um analisar e perceber qual a melhor solução.


 

22 comentários:

  1. Boa noite,
    Podias emprestar-me o teu multicultivador? Andamos nas nossas fainas, ando cansada, mas muito feliz.

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  2. Obrigada pelo vídeo. O meu marido é que costuma cultivar, mas este ano não tem tido tempo, por isso eu precisava de saber como se "vira" a terra. Fiquei esclarecida! Muito agradecida. (ilha Terceira, Açores)

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    1. Não se deve virar a terra mais do 20 cm, para não trazer a terra infértil para cima. Portanto não cavem muito fundo que não vale a pena...

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    2. Olá Sebastião,
      Concordo e muito com o seu blog.
      Até parece que estou a ouvir falar os meus antepassados, até os termos utilizados são comuns apesar da distância geográfica.

      Muito obrigado por não deixar morrer, esquecer estas tradições dos nossos antepassados queridos.

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  3. Caro "xx" é percetivel a vontade de exposição dos seus pontos de vista...no entanto há saberes que os livros não albergam...peço-lhe que respeite o intuito deste blog, feito do saber adquirido, transmitido de pais para filhos..de geração em geração...ele não pretende ser objeto de análise cientifica, nem de espaço para essa abordagem...poderá criar um espaço próprio , onde o poderá fazer.
    Concluo apenas para referir , contrariando o seu anterior comentário...vale a pena sim, cavar, e fundo...é notória a sua inexperiencia, mas poderá ilucidar-se ao fazer uma visita pelos campos do Ribatejo, onde poderá assistir ás máquinas rasgando a terra...profundamente...e penso que sabem o que fazem...poderá aproveitar para questionar qual o objetivo de se lavrar a terra a essa prefundidade !

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    1. Concordo consigo plenamente. O saber da experiência é insubstituível. Este saber pode ser sempre enriquecido com os livros, mas por muito que se leia, sem FAZER, nunca se chega a SABER verdadeiramente. Parabéns pela partilha dos seus conhecimentos. Ana Ribeiro

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  4. Ora cá está uma coisa que nunca e jamais se deve fazer que é usar uma fresa e revirar a terra!! alem de por a terra fofinha como tanto vós gostais está-lhe a tirar todos os nutrientes e cada vez que ela é lavrada e fresada perde qualidades.
    Podeis invocar os santinho todos e a experiência que adquiristes ao longo dos anos de família, mas não podeis continuar a usar técnicas jamais ultrapassadas e que danificam a nossa terra.
    Tenho resposta à vossa pergunta; no Ribatejo como em outros locais, lavram-se as terras porque infelizmente o povo não sabe mais que não quer aprender, mas o ideal seria ripar a terra, ou seja, abrir rasgos verticais uma vez por ano com profundidades não superiores a 20cms.
    Fico feliz por saber que a partir de 2014 a agricultura convencional vai terminar e vão obrigar o agricultor convencional a mudar para produção integrada onde tem de cumprir certas regras, caso não queira terá de parar de cultivar. E ainda bem que vão exigir "receita" na compra dos produtos fitossanitários e licença de aplicador dos mesmos, pois da maneira que se usa e abusa de químicos em Portugal os alimentos não valem nada.
    Respeito o seu saber e a sua boa vontade em partilhar, mas o que partilha está de todo errado e só quem não liga nenhuma ao ambiente e não quer aprender é que continua a fazer igual.

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  5. ola oseu comentario esta muito bem feito,mas pelos vistos voce deve ser agricultor de secretaria quem foi que lhe meteu estas ideias na cabeça de que nao se deve lavrar a terra pois meu amigo e como lhe disse nao deve nunca ter agarrado uma enxada e trabalhar na tal terra , a questao de dizer que vao pararde cultivar a terra se nao fizerem o que lhes for exigido ai a que se vai ver a fome que muitas familias vao passar.quanto aos produtos fitossantarios voce acha que os produtos importados nao os leva pois desengan-se.

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  6. Caro anonimo do dia 21 de junho, sou curioso quanto as ideias q os novos agricultores tem do campo, apesar da sua opiniao da profundidade da lavoura nao estar totalmente errada, pois a lavoura seja ela feita com maquinas, com animais ou manualmente tem como funçao mexer o solo de modo a matar as possiveis ervas e "mexer o chao para q as raizes se possam desenvolver, tirando certas culturas como a vinha e o pomar, em que a profundidade da lavoura para a plantaçao destas deve rondar os 90cm, nao ha outra cultura, pelo menos que eu tenha conhecimento que mande as raizes muito mais de 20 cm, ou seja esta profundidade pode ser suficiente, mas isso nao é regra pois depende do tipo de solo e do tratamento q lhe dao,e claro q neste caso estamos a falar de um motocultivador q dificilmente faz uma lavoura funda demais e quanto a sua ideia q a terra fofa tira os nutrientes, nao sei aonde a foi buscar, pois se tem alguma experiencia sabera q quanto mais miudo e fofo estiver o chao melhor conserva a humidade e os nutrientes, isto qualquer agricultor sabe, quanto aos produtos fitossanitarios sao usados tanto ca como no estrangeiro,os estragos q fazem sao culpa da falta de instruçao dos postos de venda e de falta de consciencia de quem os aplica, mas nao devemos generalizar pois alem de quem nao os sabe usar, ha quem os use como deve de ser, se fosse tudo biologico era muito bom mas ainda estamos longe disso se nao sabe porque faça uma horta e logo veja, e quanto ao ter de parar de cultivar isso era otimo, voltava td a tras os agricultores voltavam a cultivar so para o gasto da casa a antiga, em vez de estarem a trabalhar para os engenheiros e doutores e outros tais como vossa exelencia, que levam a vida a fazer pouco de quem vos poe o comer na mesa. E se nao gosta do blog nao o visite, da minha parte acho que é um otimo blog para quem quer praticar uma agricultura caseira nos tempos livres e desejo uma boa continuaçao! Abraço

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    1. Boas, a meu ver ambos têm razão, por exemplo um grande problema da frese é descaracterizar o solo ou seja misturar vários estratos de terra e matar bichinhos bons tais como as minhocas, por outro lado vai também criar um calo por baixo das facas que vai tornando esse solo impermeável impossiblitando o arejamento e o escoamento de àgua.
      Quanto à lavoura eu apenas a uso caso queira um terreno mais arejado e mais permeável, para fazer uma lavoura de 20 cm mais vale escaraficar a terra.

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  7. Fernando Teixeira de Sousa5 de Dezembro de 2013 às 03:34

    Os seus posts têm bastante interesse.
    Planta árvores de futo?
    Acho que poderia ser util a sua experiência nesse campo.

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  8. Acho sempre muito interessante esta troca de ideias sobre as cavas e a opção de não cavar, cavar fundo ou mais superficialmente..
    Da minha experiência e do que me ensinaram, só vos tenho a dizer: DEPENDE! e de muitos factores..
    Primeiro que nada: cavar ou revirar a terra, através de lavouras, fresagem e/ou uso de outras alfaias NÃO É INDISPENSÁVEL. Se fosse nenhuma "terra virgem" era produtiva, nem se praticariam com sucesso as tecnicas de sementeira directa.
    É, sim, verdade, que a cava ou qualquer outro reviramento "estraga" o solo. Isto acontece porque com o reviramento e esmiuçamento aumenta-se o arejamento. Com o maior arejamento aumenta o afluxo de oxigénio às camadas reviradas, o que permite que os microorganismos aumentem o ritmo a que consomem a matéria orgânica. Grande parte da matéria orgânica é transformada em nutrientes, que, ou são incorporados e aproveitados pelas plantas e microorganismos ou se "perdem", porque são volatilizados ou lixiviados (passam para a atmosfera ou para as camadas profundas do solo, onde as plantas da horta não chegam). Estes processos acontecem sempre no solo, mas o reviramento acelera os processos. As plantas da horta por estarem mais espaçadas que o povoamento natural e porque, à sementeira ou plantação, não têm raízes que cubram toda a área, aproveitam muito pouco os nutrientes disponibilizados nessa fase.
    Por isso garanto-vos: se a única coisa que fizerem ao solo for cavar, a vossa horta durará pouco tempo..
    Para ajudar, com o empobrecimento da terra em matéria orgânica, a estrutura do solo, ou seja o modo como as partículas de solo se agregam sofre alterações: a terra passará a ser mais difícil de trabalhar e passa a aguentar menos tempo o "estar fofinha", as raízes têm mais dificuldade em penetrar, os impactos das gotas de chuva e da terra formam crostas mais facilmente. Isto nota-se mais em solos argilosos (finos) do que em solos arenosos.
    Com a cava também se prejudicam muitos organismos (ex. minhocas!) que contribuem para a permeabilidade e boa estrutura do solo.
    As alfaias mecanicas com que se substituiu o processo da cava ( ex. charruas e fresas) se não forem usados com a terra em estado de sazão, podem originar o chamado "calo de lavoura", principalmente em terras argilosas. Isto é um imperme (uma camada profunda de solo compactado) que impede, ou pelo menos dificulta o desenvolvimento das raízes e a infiltração da água...
    Penso que estas razões chegarão para afirmar que a cava, ou lavoura é, de facto, prejudicial.









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    1. O sr poderia explicar ao resto do pessoal, e eu pessoalmente estou curioso, como se fazem plantações sem cava, lavra, ou outro qualquer remeximento. É com os...OLHOS!!!!! rsrsrs...

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  9. Não sendo revolucionário, há maneira de NÃO CAVAR ! (Espero que quem tenha aguentado ler até aqui esteja de olhos a brilhar, porque sabe, pelo menos, o quão cansativo é cavar.)
    O "segredo" é aumentar muito (geralmente) os teores de matéria orgânica (aquilo que a cava/mobilização destrói) do solo da horta. Quando isso se consegue, a terra argilosa passa a estar muito mais fofa e esmiuçada naturalmente ao passo que o solo arenoso passa a ter fertilidade suficiente e a aguentar a água das regas mais tempo. Para aumentar o teor de matéria orgânica não a devemos incorporar na terra (ou seja mobilizar) porque assim esta mineraliza-se muito mais depressa, Basta pô-la por cima da terra, que a chuva e os seres vivos (minhocas, formigas etc) tratam de a enterrar. Matéria orgânica são estrumes, restos orgânicos, produtos da compostagem, camas dos animais estabulados etc. Os resíduos das culturas que as culturas deixam no terreno (palhas, folhas etc), desde que convenientemente reduzidos a pequenas dimensões também devem ser deixados à superfície do terreno.
    Semear: é só enterrar a semente, plantar é só meter a plantinha num buraco (uma única cavadela). Considero, por enquanto, arriscado o transplantar sem mobilizar pelo menos ligeiramente,ou seja, só um bocadinho para facilitar o enraizamento. No caso das sementeiras, não haverão problemas (como o confirmam os agricultores que optam pela sementeira directa à vários anos) porque as plantas provenientes de semente são geralmente mais vigorosas que as transplantadas e porque o transplante é uma operação drástica para qualquer planta.
    Isto é possível porque a Mat. Org., as minhocas e similares deixarão a terra fofa o suficiente para que as raízes se expandam. Consoante o teor de matéria orgânica, a terra até pode parecer turfa. Estes são os fundamentos práticos da Sementeira Directa, ou Não Mobilização.Parece um sonho!
    Então esses antigos que mandavam cavar de sol a sol eram uns atrasados que não nunca perceberam que cavar destruia o solo? Nem por isso.
    Agora os principais inconvenientes da Sementeira Directa:
    Controlar as infestantes - Só com herbicida.
    Este era um dos principais factores pelo qual antigamente se tinham de cavar as terras. Para aumentar as produções através da redução da competição com as infestantes, pelo menos à nascença da cultura.
    O outro: Como nas nossas condições de clima as terras não conseguem acumular matéria orgânica suficiente havia necessidade de as "afofar". Mas porquê? Se as ervas nascem e crescem e se criam carvalhos, oliveiras e pinheiros colossais sem o cuidado de agricultor algum?
    Uma das razões será devido ao processo de melhoramento que as espécies que cultivamos vão sendo alvo. Trigos, milhos etc têm vindo a ser seleccionados e melhorados pelo homem num processo que tem milhares de anos, embora se tenha intensificado nos séculos recentes. Esse processo torna-os mais produtivos, cumprindo os objectivos, "direccionando-lhe a força para onde interessa" (para o grão, no caso). No entanto, tira-lhes capacidade de tolerar condições menos óptimas, doenças etc. ou seja, as plantas tornam-se mais sensíveis. Se não tiverem condições próximas do óptimo não produzem convenientemente. Enquanto uma planta da mesma espécie, mas selvagem, produz menos grão, mas produz em muito piores condições. Compare-se um porco com um javali, um cão com um lobo, etc. Este processo também aconteceu nas horticolas.
    Conclusão: as plantas que usamos para além do sistema radicular ter, possivelmente, menos poder de penetração produzem muito pouco se tiverem de competir com outras, então ou se mobiliza (cava-se, enterrando as infestantes), sacha-se e monda-se ou se aplicam herbicidas.

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  10. Então, para quem não tem um solo com matéria orgânica suficiente (TALVEZ nessa situação mondar todos os 20/30 dias resolvesse) e não quer aplicar herbicidas, cavar e sachar torna-se indispensável para combater as infestantes e preparar uma boa cama de sementeira/plantação.
    Nesta situação convém incorporar regularmente matéria orgânica (estrumes, produtos da compostagem, resíduos das culturas, restos alimentares etc) como forma de manter o fundo de fertilidade, quer química (nutrientes vegetais), quer física (estrutura do solo - agregação, porosidade, permeabilidade), quer biológica (alimento para macro e microorganismos), destruído pela mobilização.
    Quanto à profundidade das cavas: Na minha opinião, deve apenas ser o suficiente para que as infestantes enterradas não se restabeleçam. Isto depende do volume de vegetal que enterramos e também na profundidade a que queremos fazer a sementeira. Parece-me, nas situações que concebo, desperdício de energia cavas que ultrapassem os 20/25 cm. As raízes da maior parte horticolas, principalmente se transplantadas, e regadas regularmente, raramente vão mais fundo. Por outro lado quanto mais fundo vamos, mais vida destruímos, quer pela acção directa dos utensílios, quer por enterrarmos mais profundamente os primeiros 5 cm de solo, onde se concentra a maior parte da vida do solo. Por outro lado, devido às condições de ausência de oxigénio, os resíduos e infestantes são decompostos mais lentamente do que quando ficam mais superficiais.

    Espero ter contribuído para a discussão. Saúde e boas produções!

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  11. Agradeço ao amigo Jorge a sua contribuição, desta forma bem elucidada, sobre o comportamento do solo aquando remexido...sublinhando, tal como refere, que essa necessidade tem muito a ver com o tipo de cultura ou plantação a fazer...na plantação de vinha , por exemplo ,é necessária uma cava profunda, passando a chamar-se de - serruba - para que as raizes se desenvolvam livremente, em profundidade.

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    1. Amigo Sebastião, quando escrevi sobre as cavas estava a pensar mais no caso das hortícolas e principalmente no caso de hortas caseiras em que não se dispõe de "maquinaria pesada" para fazer grandes trabalhos.
      Por exemplo, numa agricultura extensiva, para uma sementeira directa em condições é preciso um semeador "especial" que não é barato e um tractor de elevada potencia (+ de 100 cavalos) e é incomportável arranjar estrumes e/ou outros materiais orgânicos em quantidade que permita aumentar, repentinamente, os teores de matéria orgânica do solo. Então, o processo de enriquecimento do solo em Mat. Org. vai-se dando, na maioria das situações, pelo acumular dos resíduos das culturas sobre o solo. Nestas condições, num solo, à partida, pobre podemos demorar vários anos até ter resultados satisfatórios. No entanto, os custos provavelmente compensarão. É sempre preciso fazerem-se contas, ver se compensa. Tudo na Agricultura DEPENDE. Da variedade, do ano, da Lua, da semente, da cultura anterior, etc etc etc.

      No caso de culturas perenes, na instalação de pomares ou vinhas, ou mesmo quando se arroteiam terrenos incultos é frequente fazerem-se as tais "serrubas" ou "surribas", que é como lhe tenho visto chamar. A definição de surriba é uma lavoura profunda, frequentemente maior que 1 metro.
      Será a melhor opção?
      Mais uma vez: DEPENDE...
      De tanta coisa e coisinha que decerto não falarei de tudo. Só quero deixar claro que tudo deve ser pensado e justificado, o porquê de se fazer assim e não de outra maneira. O "Sempre assim foi" é humilde e sábio ao mesmo tempo, porém tira-nos a possibilidade de fazer o melhor com o que temos, principalmente se não soubermos o porquê de sempre assim ter sido.

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  12. Vamos às surribas.
    Antes de se instalar uma cultura perene, cuja raiz vai explorar um grande volume de solo, deve abrir-se um perfil de solo. Um perfil de solo é uma cova, aberta com alguns cuidados, que permite ver como é o solo em profundidade. Pode ter até 2 metros ou mais, se o solo der para tanto. Podem abrir-se vários perfis, em diferentes zonas se o terreno for grande ou irregular.
    É possível que se observem camadas de solo de diferentes cores, chamadas em pedologia de Horizontes, porém isso nem sempre acontece. Devem tirar-se amostras de solo de várias profundidades e das várias camadas e mandá-las analisar em laboratórios especializados (pode não ficar barato).
    Podemos também dar com água, dependendo da altura do ano e do nível do lençol freático.
    Devemos observar as raízes das plantas, até que profundidades vão. Se há impermes, ou seja, camadas de solo que impedem o aprofundar dos sistemas radiculares.
    Uma surriba sai cara. É preciso uma grande potencia de tracção, pagar mão de obra especializada, etc. É preciso justificar-se.
    Abre-se o perfil: As raízes exploram todo o perfil de solo, não há grandes dificuldades na penetração, não se notam impermes, o porta-enxerto da cultura é vigoroso, não há lençol de água no primeiro metro e meio. Vamos à análise química: pH tolerável pela cultura ao longo do perfil, fertilidade com valores aceitáveis. Não é necessária uma surriba, em principio! Bastará, por exemplo, só a abertura de regos ou covas para incorporar adubos e correctivos, ao mesmo tempo que se plantam as árvores ou videiras. É que para além de uma despesa considerável, uma surriba tem as desvantagens da lavoura, mas ampliadas a um maior volume de solo! Havendo outras opções deve evitar-se. Far-se-á, apenas quando se justifique.

    As mesmas condições, mas há um imperme nos primeiros 50/60 cm de solo. Pode usar-se um ripper. É uma alfaia tipo escarificador mas apenas com três, ou por vezes só um, "dentes gigantes". A função desta alfaia é quebrar o imperme e aumentar o volume de solo passível de explorar pelas raízes. Fica mais barato e tem muito menos inconvenientes que a surriba, uma vez que não há reviramento das camadas de solo. Por vezes há camadas de solo que não convém trazer para a superfície, uma camada com maior salinidade, demasiado argilosa ou pouco fértil, uma camada com elevado teor de sódio no complexo de troca. Nesses casos é muito melhor uma ripagem. Só se rasga o solo.

    O problema é um lençol de água superficial na maior parte do ano (tirando as do arroz e outras excepções, as raízes não se desenvolvem dentro de água), provavelmente justifica-se uma surriba para se instalar um sistema de drenagem.
    O terreno é inclinado, provavelmente uma surriba ajudará o processo de nivelamento ou a armação em socalcos.
    O solo tem pH muito ácido, alcalizado ou muito pouco fértil. Pode justificar-se uma surriba para incorporar os correctivos do solo (vulgarmente calcário, gesso, matéria orgânica, Fósforo e Potássio) em profundidade.
    O terreno é inculto, teve mato, floresta ou uma cultura perene anterior. A surriba pode ser usada para se retirarem restos das raízes das árvores e toiças que podem ser inóculo de doenças para a nova cultura, ao mesmo tempo que se aproveita para corrigir o solo.
    Uma surriba é uma operação drástica, complexa, exigente. Deve ser ponderada, contando com o maior numero de informação possível, pois corremos o risco de ficar em pior situação do que a que tínhamos antes de mobilizar. Não é para se fazer por receita ou tradição, mais não seja, por motivos económicos.
    Convém considerar se uma ripagem não nos faz um serviço satisfatório, ou mesmo melhor, o que acontece em muitas situações.
    Espero ter contribuído para a discussão. Saúde e boas produções!

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  13. Amigo Jorge, " ...o porquê de sempre assim ter sido." é tambem o caminho que vou partilhando...agradecendo a sua abordagem mais profunda, que acrescenta agora a este ato de - cavar a terra - um saber, revestido de importancia, na simplicidade do mesmo, que ainda, não me tinha levado a questionar, mas tendo a perceção de que é assim que as coisas se vão passando...convidando-o sempre que possivel, a partilhar esse conhecimento.
    Cumprimentos.

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  14. Caro Sebastião, agradeço-lhe o convite e espero corresponder, contribuindo..
    Também quero felicitá-lo pelo blog, pelo transmitir de tradições e experiências.
    Tudo o que escrevo são as minhas opiniões e não passam de sugestões, apenas as fundamento, porque caso contrário são inúteis.
    Cumprimentos

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  15. Caros amigos, achei que talvez fosse interessante editar o "terramanhada" em livro. Um projeto que vai tomando forma, no qual penso inserir alguns dos vossos comentários, nomeadamente os do amigo , Jorge Anastácio, no entanto se assim não desejarem, respeito a vossa vontade.
    Cumprimentos

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